Toxicidade Cosmética!

 

 

Análise das Substâncias Nocivas Contidas nos Produtos de Maquiagem e seu Efeito na Pele

 

O termo maquiagem tem como significados (Dicionário Michaelis) ma.qui.a.gem sf (maquiar+agem) V maquilagem. Ato ou efeito de maquilar ou maquilar-se (Dicionário Aulete)-Do fr. Maquillage: Ação de mascarar Maquiar: ma.qui.lar (fr maquiller) vtd 1 Pintar o rosto de (alguém). vpr 2 Pintar o próprio rosto. vpr 3 Usar cosméticos.( diccionario informal).

 

A partir do século XVI, o uso de cosméticos difundiu-se consideravelmente – embora a maquiagem fosse criticada, pois se entendia que a beleza deveria ser uma qualidade natural da mulher, e não uma condição por ela buscada. “A Modernidade prolonga à sua maneira as velhas críticas religiosas associando maciçamente a maquiagem à impureza”. (VIGARELLO, 2005, p.37).

 

A utilização dos produtos disponíveis na época poderia trazer à mulher consequências desastrosas, já que muitos deles eram compostos de substâncias tóxicas, como carbonato de chumbo, mercúrio e bismuto. (PRAÇA, 2010).

 

Em 1938, o congresso norte-americano aprovou a lei “Food, Drug and Cosmetic Act”, que definiu como um produto tópico deveria ser classificado.

 

Apenas duas categorias foram estipuladas: drogas e cosméticos. Enquanto a primeira é destinada ao tratamento, alívio ou prevenção das doenças, devendo apresentar estudos que comprovem seu efeito terapêutico, segurança e eficácia ao serem submetidas à aprovação do Food and Drugs Administration (FDA), nos Estados Unidos, e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), no Brasil, os cosméticos servem para embelezar e adornar, sem alterar as estruturas e funções da pele (MONTEIRO, 2014).

 

De acordo com as normas da ANVISA RESOLUÇÃO – RDC No- 4, DE 30 DE JANEIRO DE 2014 dispõe sobre os requisitos técnicos para a regularização de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes e dá outra providências.

 

Art. 11. Os produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes devem atender ao disposto:

 

I- Lista de substâncias de ação conservante permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes – Resolução – RDC nº 29, de 10 de junho de 2012 e suas atualizações;

 

II- Lista de substâncias corantes permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes – Resolução – RDC nº 44, de 9 de agosto de 2012 e suas atualizações;

 

III- Lista de substâncias que os Produtos de Higiene Pessoal, Cosméticos e Perfumes não devem conter exceto nas condições e com as restrições estabelecidas – Resolução – RDC nº 03, de 18 de janeiro de 2012 e suas atualizações;

 

IV- Lista de filtros ultravioletas permitidos para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes – Resolução – RDC nº 47, de 16 de março de 2006 e suas atualizações;

 

V- Lista de substâncias que não podem ser utilizadas em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes – Resolução -RDC nº 48, de 16 de março de 2006 e suas atualizações.

 

No Brasil, os cosméticos recebem uma classificação de acordo com o grau de risco, sendo os produtos de grau 1 os produtos com risco mínimo, e os produtos de grau 2, produtos com risco potencial. Os produtos de maquiagem fazem parte do grau 1 (BRASIL,2014).

 

Os cosméticos são formulados utilizando ingredientes apropriados de alto perfil de segurança e em níveis de concentração adequada. Muitos desses ingredientes foram de inicio introduzidos para uso na indústria farmacêutica e posteriormente em cosméticos.

 

Embora não seja unanimidade, pode-se afirmar que os cosméticos são produtos seguros se usados de maneira adequada e seguindo recomendações do fabricante.

 

Dentro do contexto do “boom” de cosméticos surge a preocupação sobre o correto uso dos mesmos com uma visão toxicológica sobre o quanto destes produtos usados diariamente podem acarretar danos a saúde da população e também uma visão em torno de como é feito ou se é feito o controle toxicológico durante o proceso de fabricação dos cosméticos observando a legislação vigente de alguns maiores centros de consumo de cosméticos (OLIVEIRA, 2010).

 

Os princípios fundamentais do estudo da dermatotoxicologia foram  desenvolvidos por Arnold Lehman e Jonh Draize há mais de 50 anos atrás e continua em vigor até hoje. Esse tema tem se mostrado indispensável para  abordar os problemas associados com  exposição da pele a produtos químicos.

 

A via cutânea ou dérmica é a porta de entrada mais frequente das intoxicações pela maioria dos agentes tóxicos. A absorção depende de fatores como formulação, tempo de exposição, solubilidade (hidro ou lipo), grau de ionização, dimensão das moléculas, hidrólise nas condições de pH da epiderme e derme, estado de hidratação da camada de queratina, umidade ambiental, temperatura do corpo e do ambiente, luz solar, entre outros (SANTOS,2008).

 

A indústria cosmética é um dos setores industriais que mais cresce no país. O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de cosméticos, perdendo apenas para os Estados Unidos e Japão.

 

De acordo com Sadakane (2002),uma das hipóteses que aqui levantamos é o uso indiscriminado e muitas vezes sem controle governamental de cosméticos habituais, que são tidos erroneamente como inócuos. Eles em sua maioria possuem substâncias químicas sabidamente cancerígenas e outros xenobióticos que podem provocar câncer de mama, doença fibrocística de mama, fibroadenoma de mama, puberdade precoce, diminuição da memória ou da concentração, doença de Alzheimer, quadros de demência, osteopenia, osteoporose, crises de asma, dermatite de contato, alergia respiratória, rinite, conjuntivite, aumento do envelhecimento cutâneo, entre outras.

 

Em animais podem provocar diminuição da fertilidade e da fecundidade e toxicidade para o feto (embrião).

 

De acordo com os levantamentos atuais do site Ecycle (2016) essas são algumas substâncias contidas nos produtos de maquiagem que são nocivas para a pele:

 

– BHA e BHT: o BHA (buthylated hydroxyanisole como se apresenta nas embalagens) e o BHT (butylated hydroxytoluene) são encontrados principalmente em batons, sombras para os olhos, desodorantes e antitranspirantes. Os compostos são previstos pelo Programa Nacional de Toxicologia dos Estados Unidos como razoavelmente carcinogênicos para os seres humanos, baseados em experimentos com animais.

 

– Chumbo: é um metal pesado nocivo aos seres humanos e ao meio ambiente em altas doses. Está presente no ambiente por conta de atividades antropogênicas, especialmente por emissão de fundições e fábricas de baterias. O chumbo (Pb) ou lead (em inglês) está relacionado com ocorrência de câncer, depressão, agitação, agressão, perda de concentração, déficit de QI, hiperatividade, desregulação do ciclo menstrual, nascimento prematuro, Alzheimer, Parkinson, redução das capacidades cognitivas, entre outros distúrbios e  doenças. As vias de exposição ao chumbo são oral, inalatória e pelo contato com a pele. Outras fontes de exposição ao Pb são os cosméticos e produtos de beleza, como tintura para cabelos e batons. No Brasil, esse metal é regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e só pode estar presente na tintura capilar com limite de 0,6%.

 

– Parabenos: também conhecido como parabens (em inglês), são produtos químicos muito utilizados em cosméticos pela sua ação antimicrobiana e antifúngica. Segundo o FDA, entre os produtos que podem conter parabenos, estão maquiagens, desodorantes, hidratantes, loções, esmaltes, óleos e loções infantis, produtos para o cabelo, perfumes, tinta para tatuagens e até mesmo cremes de barbear. O parabeno interfere no sistema endócrino de humanos e animais – ele possui uma atividade estrogênica – por conta disso ele é considerado um disruptor endócrino. Atualmente, essas substâncias vêm ganhando relevância, pois mesmo em doses pequenas podem causar malefícios à saúde e ao meio ambiente. Vale a pena conferir o rótulo do produto para se certificar da ausência de parabeno na sua fórmula.

 

– Lauril sulfato de sódio: é considerado um tensoativo responsável por retirar oleosidade, produzir espuma, permitir a penetração da água na pele ou nos  cabelos. Ele pode ser encontrado em produtos de limpeza e em diversos cosméticos, como shampoo, removedores de maquiagem, sais de banho e pastas de dentes. O lauril sulfato de sódio e o lauril éter sulfato de sódio também conhecidos nas embalagens como sodium lauryl sulfate e sodium lauryl ether sulfate, respectivamente, são nocivos à saúde por desencadearem reações alérgicas. Rumores sobre a possibilidade destes compostos serem carcinogênicos ainda não podem ser confirmados, devido à falta de comprovações científicas.

 

Por exemplo, dióxido de titânio em pó, como encontrado em maquiagem, foi associado a câncer quando inalado, mas é considerado seguro quando usado em uma emulsão, como creme dental ou protetor solar. Outras matérias primas, como ftalatos, podem ser considerados seguros para uso em alguns produtos cosméticos em baixas concentrações, mas são banidos em outros produtos  (JAIMINY,2014).

 

Ainda de acordo com o autor supracitado, um dado atual e interessante é que de acordo com uma estimativa, os consumidores nos EUA usam cerca de 10 produtos cosméticos todos os dias, resultando em uma exposição diária de mais de 125 matérias-primas diferentes. Esta frequência de exposição, combinada ao número de produtos cosméticos em uso, aumenta drasticamente o risco de reação adversa a um produto cosmético.

 

A maioria dos efeitos adversos da exposição a matérias-primas em produtos cosméticos está limitada a irritação da pele ou dos olhos, ou outros tipos de reações alérgicas. Esses efeitos geralmente desaparecem quando o uso do produto que contém a matéria-prima é descontinuado. Contudo, reações mais graves e debilitantes podem surgir da exposição prolongada (Archer, 2013).

 

Além disso, há alguns estudos sobre o impacto da exposição a longo prazo a matérias-primas cosméticas, ou seja, é essencial que haja mais pesquisa.

 

Na literatura tem algumas publicações atuais sobre a toxicidade cosmética como o trabalho de conclusão de Oliveira (2010), onde aborda sobre a Dermatotoxicidade cosmética e sua relação com a pele. Em alguns casos, os efeitos adversos estão relacionados à forma na qual a matéria-prima cosmética é utilizada.

 

A publicação de Procedimentos Estéticos e Público Infantil de Nunes, et al (2011), onde informa sobre a presença de conservantes presentes nos produtos e o risco para a pele e saúde da criança. A monografía de Berlinck (2015) sobre  Formulação de Produtos Dermocosméticos com Aplicação em Procedimentos Estéticos, onde pode entender sobre a toxicidade e elaborar cosméticos próprios.

 

 

 

Prof. PaulaPaiva

 

 

 

Referências:

Archer,Lisa (5 de maio de 2009). Coordenadora nacional da Campanha de Cosméticos Seguros, mencionada em “Salvando o Rosto: Qual a Segurança dos Cosméticos e de Produtos para Tratamento Corporal”, Scientific American,. Acesso em: 22/07/16. Disponível em:www.scientificamerican.com/article.cfm?id=how-safe-are-cosmetics

“Dióxido de Titânio Classificado como Possivelmente Carcinogênico a Humanos”. Centro Canadense para Saúde e Segurança Ocupacional”. Press Release. Agosto de 2006.Acesso em: 22/07/2016. Acesso em: http://www.ccohs.ca/headlines/text186.html

Berlinck, Nathália Sorroche.(2013) Estudos de Pré-formulação e Desenvolvimento de Preparações Cosméticas Formulação de Produtos Dermocosméticos com Aplicação em Procedimentos Estéticos.Brasil. (2014) .Diário Oficial da União. ISSN 1677-7042. Nº 22, sexta-feira, 31 de janeiro.

Domingo JL.(2006).  Aluminum and other metals in Alzheimer’s disease: a review of potential therapy with chelating agents. J Alzheimer Dis;10(2-3):331-41.

Nunes, Graciele Rodrigues; BOSCO,Pricila Campos;Watanabe,Elaine. Procedimentos Esteticos e Publico Infantil: uma pesquisa sobre riscos entre crianças entre 8 e 11 anos de idade.

Oliveira, Amanda S.(2010) Dermatotoxicidade: uma abordagem farmacéutica.Porto Alegre.

Pankaj Jaiminy (2014).Testes em cosméticos Exigências para productos cosméticos no mercado global © TÜV SÜD do Brasil | V-IM/FHB/5.0/pt/BR. Disponível em:  www.tuv-sud.com.br. Acesso e: 22/07/16

Praça, Gabriella M. da Silva;Leal, Paulo R. F. (2010). A beleza que oprime: um estudo dos padrões estéticos socialmente estimulados pela Comunicação de Massa. Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória, ES – 13 a 15 de maio.

Sadakane K; Takano H; Ichinose T; Yanagisawa R; Shibamoto T.(2002) Formaldehyde enhances mite allergen-induced eosinophilic inflammation in the murine airway. J Environ Pathol Toxicol Oncol; 21(3):267-76

Santos, Hamilton.(2008) Toxilogia: a garantía de cosméticos seguros.  Cosmetics & Toiletries (Brasil). Disponível em: www.cosmeticsonline.com.br Vol. 20 mar-abr

Vigarello, Georges (2005). História da beleza. Rio de Janeiro: Ediouro.

 

 

 

 

Paula Paiva

Sobre Paula Paiva

Graduada em Fisioterapia pelo Centro Universitário de João Pessoa (2002) | Proprietária da CLINIFISIO | Doutouranda em Saúde Pública pela UCES | Especialista em Ciências Políticas da Educação pela Lusófona | Especialista em Dermato Funcional, Gerontologia e Terapia Manual | Professora de pós graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba,Universidade Gama Filho, Estácio de Sá ,FIP e IAPS | Docente do Instituto de Educação Superior da Paraíba.